terça-feira, 6 de maio de 2014

Revolver

Conheça o psicodélico álbum no qual os Beatles abriram as portas da percepção e elevaram o rock à categoria de arte

“Paul McCartney, incentivando os Beatles a fazerem pequenos trechos de sons superpostos, inspirados em John Cage e Stockhausen. John Lennon querendo soar como o Dalai Lama no alto do Himalaia ao cantar letras inspiradas na versão do dr. Timothy Leary para “O Livro Tibetano dos Mortos”. O dedo oriental de George Harrison em uma canção sem mudanças de acordes. A bateria frouxa e hipnótica de Ringo Starr, mais tarde ressuscitada por moderninhos como Beck e Chemical Brothers. O produtor George Martin obrigando funcionários dos estúdios Abbey Road a sincronizarem gravadores em colagens aleatórias de som. O técnico Ken Townshend inventando os vocais ADT (Artificial Double Tracking) e o engenheiro de som Geoff Emerick metendo a voz de Lennon numa caixa Leslie dentro de um órgão Hammond. E isso tudo no primeiro dia de gravação do sétimo disco dos Beatles, em 1966, para uma única canção. A música se tornaria ‘Tomorrow Never Knows”.
Assim a revista Bizz abria – brilhantemente - um texto sobre o álbum Revolver, em alguma edição lançada em algum lugar do espaço-tempo localizado no fim dos 90’s. Li na época e até hoje me impressiono com o parágrafo. E, é claro, com o álbum.
Sessões de gravação do álbum em 1966
“Tomorrow Never Knows”, com a utilização de loops e a repetição rítmica da bateria de Ringo, é uma das ancestrais da música eletrônica e fala sobre ácido (“desligue sua mente”, “ouça as cores do seu sonho”, “relaxe e flutue, isso não é a morte”). É considerado o início de uma época de experimentação na música popular que iria explodir na “renascença psicodélica” de 1967, com o surgimento de diversos músicos e grupos de Acid Rock como Janis Joplin, Jefferson Airplane, Jimi Hendrix e Grateful Dead; com o movimento na esquina das ruas Haight e Ashbury; o “Verão do Amor” e festivais como Woodstock. A utopia dos anos 60 iria acabar no final da década, com as mortes de Hendrix, Janis, Brian Jones e Jim Morrison (todos aos 27 anos); com a separação dos Beatles e com todo o caos no show dos Stones em Altamont, onde Hells Angels bêbados desceram porrada em um público  completamente alucinado de LSD, culminando no assassinato de um fã pelos motoqueiros, enquanto os misóginos Stones cantavam sobre estupro, violência e ocultismo.

Foi com Revolver que tudo isso começou. Ozzy Osbourne já disse em entrevistas que o que os Beatles fizeram foi como se alguém pintasse o mundo de uma cor nova, que ainda não existia. Apenas um ano antes, eles estavam gravando a pop e bonitinha “You’re Going to Lose that Girl”. De repente, com Revolver, os Beatles abordavam assuntos como existencialismo, psicodelia, temas infantis, depressão, amor à vida, críticas sociais e todo tipo de metáforas. Escalada de maturidade artística que iria gerar obras-primas como Sgt. Pepper’s, o Álbum Branco e Abbey Road.
Dorgas, mano!!1
As drogas exerciam um papel fundamental na nova fase do grupo. Em 1965, haviam sido apresentados à maconha por Bob Dylan, que achava que o verso “I can’t hide” de “I Want to Hold Your Hand” fosse “I get high”. Até então, só consumiam anfetaminas, hábito que criaram na época em que precisavam tocar até dez horas por noite nos puteiros de Hamburgo, na Alemanha, antes de gravarem o primeiro álbum. As canções dessa época também já refletiam o consumo das substâncias usadas. Da fase de Hamburgo até o álbum do filme homônimo “A Hard Day’s Night”, as músicas seguiam o padrão de “one, two, three, four!”/ estrofe/ refrão/ gritos frenéticos de ‘whoooaaaaaahhhh!!!!’/ solo”. Anfetamina pura, que influenciaria bandas como os Ramones na década de 1970.
A partir de 1965, com o álbum “Help!” e o encontro com Dylan, as canções se tornariam mais introspectivas e com letras mais pessoais: “Hide Your Love Away”, “I’ve Just Seen a Face”, “Yesterday”. O filme e o álbum foram rodados sob uma fumaça permanente de maconha. O violão passou a ser muito usado, com uma pegada folk claramente influenciada por Dylan que, por sua vez, adotaria a guitarra em seus álbuns – sendo vaiado, criticado e chamado de “Judas” por isso.  
"Quem não tem colírio..."

No entanto, seria só em Revolver que o LSD entraria na história. Lennon e Harrison haviam sido aplicados, sem saber, durante uma festa. “Eu recomendo que vocês não saiam daqui agora”, o anfitrião teria dito. Os dois pensaram que ele estava armando uma das famosas orgias que rolavam nos sixties. Pegaram suas esposas e se mandaram. No caminho, sentiram os efeitos enquanto dirigiam para boate londrina Ad Lib, passando o resto da noite doidões. Só foram entender o motivo no dia seguinte.
A partir daí, os dois se tornariam ávidos consumidores de LSD. Ringo também entrou na onda. Somente Paul viu o novo hábito com desconfiança (“Mais essa agora?”), aderindo à droga por último, mas também reconhecendo os efeitos do LSD na criatividade e se tornando um entusiasta do ácido. Lennon, a partir da milésima viagem, desistiu de contar. Só foi diminuir seu apego à guloseima lisérgica quando descobriu seus dois novos amores, já no final da banda: Yoko e a heroína.
Em Revolver, a faixa “Dr. Robert” cantava sobre um médico que aplicava seus pacientes. “Got to Get You Into My Life” é sobre o entusiasmo de Paul com a maconha (“I need you every single day of my life”, coisa que ele levou ao pé da letra durante décadas) e foi inspirada na soul music americana, com o uso de metais. “She Said, She Said” é sobre uma viagem de ácido que Lennon teve com o ator Peter Fonda, sua segunda experiência com LSD. Há um trecho em que ele diz "I know what it's like to be dead", frase que Peter Fonda teria lhe dito após tomar ácido. Na música, George assume o baixo após Paul largar as gravações em decorrência de uma briga com John.

Ressaca

Não havia canções simples e puramente radiofônicas. Todas tinham alguma aura mística, de duplo sentido. “Taxman” abre o disco, com o som da tosse de pulmões cheios de fumaça, seguida do riff. A música é uma crítica aos altos impostos ingleses. No trecho em que cantam "Mr. Wilson" e "Mr. Heath", eles se referiam a Harold Wilson, Primeiro Ministro inglês, e Edward Heath, líder da oposição política no país naquela época. O solo de guitarra fica por conta de Paul. Solo este, que entrou no disco numa versão de trás pra frente.

“Yellow Submarine” e “I’m Only Sleeping” brincavam com efeitos sonoros e arranjos superpostos. “Love You To” é George submerso na cultura hindu com que vinha flertando. Eleanor Rigby”, “Here, There and Everywhere” e “For No One” elevavam Paul ao nível de um Schubert lisérgico, compondo pequenas sinfonias barrocas em vez de simples baladas de amor.
A capa psicodélica do disco foi criada pelo velho amigo Klaus Voorman, um dos ‘exis’ (artistas existencialistas alemães do começo dos anos 60) com quem a banda andava na época barra-pesada na Alemanha. Meses depois do lançamento do álbum, a banda encerrou a primeira fase de sua carreira, ao anunciar que não iria mais tocar ao vivo. Revolver é o grupo no exato momento em que mudavam os parâmetros da cultura no século XX.
A capa feita pelo artista gráfico Klaus Voorman

Após o lançamento do álbum e com o encerramento das apresentações ao vivo, a banda deu uma “sumida”. A mídia alfinetava com matérias como "O que os Beatles estarão fazendo? Curando a ressaca?". Na verdade, eles estavam em estúdio gravando o próximo álbum, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, que seria considerado o ponto definitivo onde o rock deixou de ser música para dançar e se tornou música para ouvir. Foram treze canções que, continuando o que começaram em Revolver, agregaram orquestras, instrumentos hindus, gravações ao contrário, sons de animais, hard rock, music hall e jazz. Pepper foi o primeiro álbum conceitual, o precursor do Rock Progressivo e da World Music, e até hoje é considerado o melhor e mais influente álbum da história da música
“Curando a ressaca”, hein? Claro.

·         Felipe Senra, 28, é jornalista e voraz fã de rock n’ roll. Passa a colaborar de vez em quando com o na fila A. Também namora uma das sócias do blog, mas nem é por isso que ele tem espaço ilimitado pra escrever tanta coisa assim.  
 

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